“Boa viagem! Boa viagem! O Senhor vos acompanhe! Que grande é a alma portuguesa!”…“Como vos atreveis, homens terríveis, deitar a perder as vossas vidas por incertas glórias?!”…
Brados irrompiam da multidão, ecoavam dos montes, trovejavam dos céus….Confundiam as mentes…
Fora uma noite dramática, ninguém pregara olho, tal era a inquietação. Lisboa estava em alvoroço. O ambiente era não só de ansiedade, mas também de grandes hesitações. A partida era certa, já a volta….
Viajar por mares desconhecidos era arriscado… Circulavam histórias fabulosas, repletas de criaturas estranhas que punham em perigo a presença de humanos nos mares, originando receios na tripulação e nas suas famílias. Eram poucos os homens suficientemente corajosos para se aventurarem nos mares nunca dantes navegados…
Nada voltara a ser igual desde que se tomou a decisão de partir à procura de novas terras, novas culturas, novos conhecimentos...
Barcos, remos, velas e cordas faziam parte da agitação do dia-a-dia da população lisboeta. A cidade encontrava-se num grande desassossego devido aos preparativos para a grande viagem. Nada podia faltar... Era necessário armazenar o maior número possível de mantimentos, entre os quais biscoito, carne salgada, vinho, água, sal, açúcar, mel e pão (em quantidade suficiente para alimentar a tripulação).
- Cuidado com isso…. Ponham as caixas mais pesadas em baixo…. Não! – gritava o capitão Picoult.
O cais testemunhava uma autêntica confusão.
Nuno Picoult, destemido comandante, oriundo de uma conhecida família de comerciantes judeus que se instalara na cidade berço há já três gerações, bombardeava os marinheiros e os grumetes com ordens, nunca negando a sua genuína pronúncia nortenha, que, em situações de maior descontração, deliciava o povo alfacinha. Conhecido pelo seu espírito aventureiro, disponibilizou-se para liderar semelhante viagem.
- Hã…Capitão? – chamou receoso um grumete.
- Não ponham isso ao pé das frinchas! – continuava a gritar o capitão – O que desejais? – inquiriu de forma arrogante.
- Hum… - começou hesitante o grumete – Os marinheiros queixam-se de pouca quantidade de rum…
- O quê?! Mas que ousadia é essa? – inquiriu indignado – Eles que continuem a trabalhar, e não quero ouvir reclamações – finalizou, irritado.
- Tudo o que desejais, senhor! – disse o grumete a medo.
Picoult estava ansioso, iria ser uma viagem complicada, longos meses passados fora de casa, sem ter a certeza se iriam voltar…
- Calma, Amigo! – proferiu Dinis, que se encontrava junto do Capitão – Muita paciência…Com estes homens temos de nos mostrar irredutíveis.
- Eu sei – suspirou o chefe da armada.
Dinis de Castro era um grande sábio, um verdadeiro cientista, um conhecedor das artes dos mares e, acima de tudo, grande amigo de Picoult. Logo que este se ofereceu para comandar a viagem, Castro apresentou-se também para o acompanhar.
- Então, já está tudo pronto? – perguntou Picoult, saindo dos seus devaneios.
- Sim, já coloquei tudo o que necessitamos dentro da caravela. O astrolábio e a bússola poderão ser-nos preciosos para a viagem.
Picoult acenou com a cabeça, pensativo. Continuava alheado.
- Não vos preocupeis, correrá tudo bem – tranquilizou-o – Mas agora, vamos repousar que amanhã será um grande dia.
- Certo! Amanhã será um grande dia… – murmurou Picoult.
A manhã do dia nove de Março achava-se luminosa. Lisboa sentia-se inquieta, era o grande dia, o dia da partida!
Picoult encontrava-se no seu quarto, olhando pela janela, absorto nos seus pensamentos, quando um criado o chamou.
- Senhor, o rei mandou chamar vossa excelência para comparecer na celebração.
- Sim. Obrigado.- respondeu Picoult, sentindo um friozinho no estômago, característico do nervosismo, mesmo dos mais arrojados. Daí a menos de cinco horas estariam em alto mar rumo ao desconhecido…
Todos se encontravam presentes na capela da Ermida de S. Jerónimo para assistir à missa. A corte estava toda presente, assim como El-Rei.
- In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.- proferiu o bispo, dando início à cerimónia. Picoult nunca havia estado tão nervoso. Esta era a primeira vez que se preparava para uma viagem sem saber o que iria encontrar ou se iria encontrar.
- ... Sancta María, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus nunc et in hora mortis nostrae. – Apenas conseguia acompanhar algumas orações, tal era a ansiedade.
A cerimónia passou-se num ápice. Depois de terminada, realizou-se a solene procissão até ao cais.
Após concluídos todos os santos preparativos , começou o amargo adeus.
“Boa viagem! Boa viagem! O Senhor vos acompanhe! Que grande é a alma portuguesa!”….“Meu filho, toma cuidado…pois traiçoeiros são os mares.”… “Como vos atreveis, homens terríveis, deitar a perder a vossas vidas por incertas glórias?!”…
Despedidas rebentavam da população… Acenos, gritos, choros…
Picoult fora o primeiro a esquivar-se da multidão….Não se sentia bem no meio de tanta desmonstração de afeto. Colocara-se num canto escondido, a contemplar a dolorosa separação das famílias.
- Capitão Picoult! – chamou uma suave voz familiar. – Que fazeis vós aqui, oculto?
- Hã...eu não estou…estou apenas um pouco afastado…E vós que fazeis aqui?
- Por ventura, não estáveis a pensar partir em viagem sem vos despedirdes de mim?
Picoult, sem resposta, enlaça Elizabeth, aproximando-a de si…
- Capitão, estamos prontos para partir…
- Sim, estou indo – disse, voltando-se.
Virou-se novamente para Elizabeth.
- Adeus… - proferiu em voz baixa.
Caminhou em direção à caravela, dando ordens para zarpar. Antes de partir, procurou vislumbrar Elizabeth pela última vez, mas não a encontrou…
Todos acenaram à multidão, exceto Picoult que ansiosamente tentava avistar Elizabeth, mas sem êxito.
Com as suas três enormes velas, a caravela Mater Dei partiu em direção ao desconhecido, rumo a novas descobertas.
Picoult gritava entusiasticamente com os seus marujos, organizando a tripulação:
- Tu aí, larga o rum e vai ver se as cordas estão bem presas… Ei, marujo, arruma o convés… E tu, que estás aí parado, vai para a torre de vigia!
E continuava incansavelmente a dar ordens aos marinheiros para que a viagem decorresse sem percalços.
À noite, durante o jantar, Picoult e Dinis de Castro conversavam sobre esta grande aventura:
- Dinis, achas que esta viagem nos vai levar a bom porto? Acreditas que vamos conseguir descobrir novas terras? – Inquiriu Picoult.
- Claro que vamos conseguir. Onde está a tua fé de marinheiro? – Respondeu convictamente Dinis.
Já a noite ia alta quando Picoult rezava pedindo a Deus proteção e esperando a sua bênção:
- “ Pater noster qui es in caelis, sanctificetur nomen tuum adveniat regnum tuum… Amen!”
Aos primeiros raios de sol, o homem que se encontrava na torre de vigia, lançou o alerta:
- Piratas, piratas!!!
O caos instalou-se. Picoult, determinado, ordenou a Dinis a mudança de rota, tentando acalmar a tripulação. Todos cumpriram rigorosamente as ordens e a calma voltou à Mater Dei. Picoult, satisfeito com a tranquilidade restabelecida, recolheu-se e adormeceu.
O sol era agora quente e Picoult e os seus homens empenhavam-se na organização dos materiais e alimentos para que a viagem prosseguisse de acordo com o planeado.
Os dias iam passando e algum cansaço e desânimo começava a atormentar os marinheiros. A incerteza era grande, os mantimentos escasseavam e Picoult propôs a Dinis de Castro uma eventual paragem para reabastecer e descansar. Ambos consideraram que o momento era propício à paragem, pelo que ordenaram nova mudança de rota.
À medida que se aproximavam da costa sentiam mais forte a agitação marítima. Picoult franziu o semblante e Dinis leu-lhe o pensamento.
- Estás preocupado? Parece que temos de enfrentar a inevitável tempestade! – Afirmou Dinis.
- Não tenho dúvidas de que ela se aproxima e é necessário avisar toda a tripulação, para não sermos surpreendidos. – Retorquiu o capitão.
Nuvens espessas e negras engrossavam o céu que agora estava escuro como breu. A caravela levada pela ondulação ora subia na crista da onda, ora caía pesada e estrondosamente. O vento soprava furioso. A Mater Dei parecia estar à deriva, as ondas varriam o convés e as velas rasgavam-se. Picoult tomou posse do leme e deu instruções para manterem a calma, varrerem a água e baixarem as velas. O pânico tomou conta de todos. Oravam fervorosamente “Sancta Maria, Mater dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et in hora mortis nostrae”.
Mater Dei gemia com as chicotadas das ondas e com o vento enfurecido que fazia soar todas as suas harpas. O céu fechara-se, os trovões ribombavam e nos corações dos marinheiros já só morava o medo.
- Dar à bomba! Dar à bomba! - gritava Picoult desesperado.
Naquela noite, os bravos marinheiros, vencidos pelo frio e pelo cansaço, desceram ao Inferno e muitos deles de lá não voltaram.
- Picoult! Meu amado, Picoult! - sussurrava uma voz fina e lânguida.
Era Elizabeth que havia entrado na caravela, pela popa, com a ajuda de um marinheiro seu parente que a escondera num recanto do porão, por detrás de um barril de rum.
- Elizabeth, minha doce amada! Que fazes com as roupas de um marujo? Julguei não voltar a ver-te!
E os dois corpos enlaçaram-se num abraço terno e demorado...
- Terra à vista! Terra à vista! - gritou um marinheiro do cesto da gávea.
- A avaliar pelas palmeiras de tão alto porte, julgo que estamos na costa africana. - afirmou Dinis de Castro.
O Capitão pareceu concordar com o seu velho amigo e decidiu deslocar-se na companhia de cinco marinheiros para o interior da densa vegetação, à procura de vestígios de algum povo indígena. Quando se aproximavam de um terreno arenoso, foram cercados por guerreiros armados com lanças, que exibiam no rosto pinturas e cicatrizes feitas com os picos das acácias. Ao perceberem que os estrangeiros apenas procuravam comida e um local para descansar, os indígenas entoaram cânticos guturais e dançaram em seu redor.
- Quem sois? - perguntou pausadamente o ancião da tribo, que surgiu sentado no ramo de um baobá.
- Somos navegadores enviados por D. João II de Portugal, o Príncipe Perfeito. Partimos de Lisboa há cinco luas...
- Declaro que sejais acolhidos como amigos. Podeis chamar os restantes companheiros. - interrompeu o velho chefe da tribo Makulalae.
Ao crepúsculo, era sempre acesa uma enorme fogueira e Djakual, o grande Chefe, deliciava-se com as histórias de Picoult, que não se cansava de enaltecer a sua terra natal e de contar as façanhas do seu fundador - D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal.
Numa noite de lua cheia, surgiu um acontecimento memorável. Boruak, o velho feiticeiro da tribo, após retirar a máscara que lhe ocultava a pele do rosto queimada pelo sol e pelo sal, anunciou uma profecia:
- Picoult, o amor que sentes pela cidade que te viu nascer é grande e é por causa desse amor e da bravura dos teus descendentes que algo magnífico irá acontecer no ano cristão de 2012. Todo o velho continente se irá curvar perante a história e cultura dessa tua tão amada cidade e o coração será o símbolo impulsionador desse grande acontecimento.
Todos ficaram surpreendidos com aquela profecia. Dinis de Castro, que tinha uma jovem ao colo, retirou as mãos gulosas dos seios da negra e piscou o olho ao seu Capitão, parecendo duvidar das sábias palavras do místico feiticeiro.
Picoult, por seu lado, acreditava na determinação do povo de Guimarães e sabia que ele seria capaz de realizar um feito que dignificasse a cidade que viu nascer a nação portuguesa.
O velho chefe Makulalae levantou-se e, dançando por entre os membros da tribo, à volta da fogueira, invocou:
- Ou se yon pati! Ou se yon pati! Ou se yon pati!
Os portugueses olharam uns para os outros surpresos, não tendo compreendido as palavras proferidas. Dinis de Castro continuava desconfiado. O capitão, porém, continuava a pensar na profecia do feiticeiro.
No fim de um dia repleto de peripécias surpreendentes, os portugueses foram deitar-se. O capitão Picoult aconchegou-se e adormeceu. Pouco depois, uma voz sussurrava ao seu ouvido:
- Tu fazes parte! Tu fazes parte!
Foi então que, por muito inacreditável que pudesse parecer, o capitão deu por si em frente a um grande pavilhão de cor verde. Ao lado dele, encontravam-se Dinis de Castro e Elizabeth.
- Mas, o que é isto? – perguntou Picoult – Onde é que estamos?
Seria um sonho ou uma alucinante viagem no tempo?
Tantas perguntas para as quais não encontravam resposta. Mas parecia tudo tão real!
Entreolhavam-se sem saber o que fazer, até que Elizabeth exclamou:
- Oh! Olhai para as pessoas! Que estranha forma de vestir!
O trio observava atónito a multidão entusiasmada que se preparava para entrar.
Tantas bandeiras! Um enorme coração a pulsar! Tanta cor e alegria!
Quando deram por si, estavam a ser interpelados:
- Em direto para a RTP1!... Vejo que já estão prontos para subir ao palco!... O senhor aqui, pode fazer uma antevisão desta cerimónia de abertura de Guimarães - Capital Europeia da Cultura 2012, que se iniciará dentro de momentos, no palco deste Pavilhão Multiusos?
- Oiça, eu não sei do que está a falar – replicou o capitão, intrigado.
- Como explica o tema do espetáculo “Os nossos afetos”? – continuou o entrevistador.
- Mas o que é que está a acontecer aqui? – continuou Picoult, ficando impaciente.
- Caros telespectadores, a emoção que se vive neste momento em Guimarães é grande, como podem constatar... Passo a emissão para o largo João Franco, onde se encontram a Sónia Araújo e o Mário Augusto, com novos motivos de reportagem…
O capitão Picoult, Elizabeth e Dinis de Castro continuavam perplexos.
- O melhor é seguirmos as pessoas para dentro – sugeriu Elizabeth.
Entraram, não escapando aos olhares de troça e de curiosidade lançados sobre cada um deles.
- Farão parte do espetáculo? – ouviam eles.
Muito apertados, no meio daquela imensa confusão, os viajantes conseguiram entrar no pavilhão e lá encontraram um lugar para se sentar.
Subitamente, toda a gente se levantou e ficou a ouvir sentidamente “Heróis do mar, nobre povo / Nação valente, imortal…”.
O orgulho estava estampado no rosto dos espectadores que, no fim, bateram palmas fervorosamente.
- (...) Tudo vai ser feito para estarmos à altura do desafio que nos foi colocado pela União Europeia ! – ouvia-se, de seguida.
E ainda :
- (…) a Capital da Cultura que hoje abre as suas portas realiza-se numa cidade que é portuguesa, europeia e universal!
E depois:
- (...) Sejam quais forem as circunstâncias económicas, a cultura nunca é e será um bem menor!
E por fim:
- (...) Portugal inteiro revê-se, neste momento, em Guimarães. Os museus serão uma praça giratória por onde passarão milhares de visitantes. O homem é um ser de cultura!
Assim se prolongaram os discursos durante cerca de uma hora e Picoult, Elizabeth e Dinis de Castro estavam a ficar irrequietos, bem como o restante público.
Eis que a orquestra deu os primeiros acordes e os três companheiros fixaram os olhos no palco, que tinha a forma de coração, e assistiram extasiados ao espetáculo de música, dança, luz e cor que se seguiu.
Elizabeth observava fascinada os violinos, Picoult admirava o piano de cauda. Que sons cristalinos! Dinis cobiçava o penteado do maestro.
Picoult e Elizabeth deixavam-se embalar pela música e pelo movimento e olhavam um para o outro apaixonadamente. Caíam bolas coloridas. O espanto crescia.
- Bum! Bum! Bum!... Bum! Bum! Bum! Bum! … Bum! Bum! Bum!... Bum! Bum! Bum! Bum! – fez-se ouvir repentinamente.
Entrava em cena, com grande entusiasmo, o grupo de caixas e bombos Nicolinos, levando a multidão ao rubro.
- É um ataque! É um ataque! Todos para o chão! – gritava o capitão, agarrando Elizabeth pela cintura.
- É um assalto! – corroborava Dinis – são os piratas!
Restabelecidos do choque, os três viajantes continuaram a assistir emocionados ao espetáculo.
No final, toda a assistência se levantou e aplaudiu efusivamente as centenas de participantes que subiram ao palco ao longo do evento.
Palmas e mais palmas.
E uma voz murmurou:
- Tu fazes parte!
O capitão Picoult acordou sobressaltado.
- Mas o que foi isto?! – resmungou Picoult sem perceber que tudo não passava de um sonho, mas um lindo sonho!
Sem ter percebido muito bem o que se tinha passado, Picoult resolveu esquecer o sonho, vestiu-se e foi até ao convés da Mater Dei para se certificar que a viagem continuava sem incidentes. Depois daquele sonho maravilhoso, Picoult acreditava que tudo ia correr bem, mas rapidamente percebeu que nem sempre as coisas acontecem como nos sonhos.
Quando Picoult chegou ao convés, encontrou toda a gente em alvoroço. Uns gritavam, outros praguejavam e outros estavam paralisados de medo. Picoult não entendeu o motivo de tanta agitação, até que percebeu a razão do pânico dos marinheiros da Mater Dei. Aproximava-se rapidamente uma caravela desconhecida.
- Barco à vista! – Gritou o marujo do cesto da gávea.
O capitão Picoult gelou e, inicialmente, não conseguiu proferir uma palavra. Mas rapidamente se recompôs e começou a dar ordens aos marujos.
- Todos aos seus postos! – Gritava Picoult – preparar para virar a estibordo!
Os marinheiros corriam pelo convés, esbarrando uns com os outros. Dinis de Castro nem queria acreditar no que via. Uma grande caravela vinha em direção à Mater Dei e a dúvida instalou-se. – Será amigável? – Interrogou-se Dinis. Ainda sem resposta à sua dúvida, eis que surge no horizonte outra caravela. Nesta altura já havia silêncio total na Mater Dei. Ninguém se atrevia a dizer nada, apenas a espera, a dúvida e a decisão do comandante.
- É portuguesa! – gritou mais uma vez o marujo do cesto da gávea.
O pânico deu lugar ao alívio e à alegria de encontrar portugueses tão longe de casa.
As duas caravelas aproximaram-se da Mater Dei e o comandante de uma das caravelas pediu autorização para subir a bordo, o que Picoult autorizou de imediato.
Picoult, ao reconhecer o comandante da recém chegada caravela, sentiu uma enorme felicidade por reencontrar o seu velho amigo Bartolomeu.
- Bem vindo a bordo, meu ilustre amigo – saudou Picoult. – Não esperava encontrá-lo aqui!
Bartolomeu Dias nem queria acreditar no que os seus olhos viam. A surpresa era notória e visível no seu rosto. Com emoção, abraçou o seu amigo de longa data que já não via há muitas luas.
- Meu grande amigo, que ventos te trouxeram até mim? – Indagou Bartolomeu.
- Nosso querido e amado D.João enviou-me com o propósito de encontrar terras e outras gentes além mar – respondeu Picoult.
- Vamos festejar o nosso reencontro com uma garrafa de rum e o meu amigo aproveita para me contar todas as suas façanhas por este mar nunca dantes navegado.
Após um belo trago de rum, Bartolomeu começou a relatar a sua viagem.
- Nem imagina o meu amigo o que já passamos desde que partimos de Lisboa – começou por dizer Bartolomeu. – A viagem não tem sido fácil e muitos perigos defrontamos.
- Nem imagina como estou curioso por saber todos os locais por onde passou e quem lá encontrou! – retorquiu Picoult completamente embevecido pelas palavras do homem que ele tanto admirava.
- Ora bem, comecemos pelo início. – começou por dizer Bartolomeu. – Como sabe saí de Lisboa com uma missão há muito desejada por Sua Majestade o Rei D.João II, que era descobrir o caminho marítimo para a Índia.
- Desculpe interromper, caro amigo, mas esse propósito não tinha sido encomendado a Diogo Cão, ou estarei equivocado? – Questionou Picoult.
- Não está de todo enganado. De facto Diogo Cão andou durante três anos e três longas viagens a explorar o Atlântico para lá do equador, a tentar sondar uma passagem para o oceano Índico, mas sem sucesso – respondeu Bartolomeu. – Por isso, D.João II incumbiu-me dessa grandiosa tarefa, a qual posso já dizer-lhe, em primeira mão, que cumpri.
- O amigo não me diga que já chegou a Índia? – indagou Picoult entusiasmado.
- Calma – aconselhou Bartolomeu – uma coisa de cada vez! Ainda não chegamos à Índia, mas já demos um passo de gigante. Conseguimos dobrar o Cabo das Tormentas e atingimos o Índico - disse orgulhoso Bartolomeu.
Picoult não conseguia pronunciar uma palavra. Continuava embriagado com as palavras de Bartolomeu.
- Quando saímos de Lisboa, mais precisamente no dia 3 de agosto de 1487, nunca pensei que iria conseguir chegar tão longe – prosseguiu Bartolomeu – mas a 6 de junho de 1488 avistei o tão malfadado Cabo. Infelizmente perdi uma naveta e nove corajosos marinheiros, mas a S.Pantaleão e a S.Cristovão aguentaram toda a espécie de perigos e não nos deixaram ficar mal.
- Não imagina como estou orgulhoso de ser português – salientou Picoult. – Não existe nenhum local na terra que não esteja ao nosso alcance.
- Tem toda a razão, meu amigo – salientou Bartolomeu – o povo português é corajoso e não desiste ao primeiro percalço. Não há tempestades, ventos ou correntes contrárias que nos façam desviar dos nossos propósitos.
Dito isto, Bartolomeu voltou à sua nau, que, de repente, foi desaparecendo no horizonte.
Com a inesperada visita de Bartolomeu, Picoult começava a pensar em como poderia igualar a façanha cometida pelo seu ilustre amigo, não por inveja ou para o superar, mas para tornar ainda mais nobre a sua nação. Tinha de cumprir gloriosamente a sua missão… O mundo haveria, também, de saber quem tinha sido o vimaranense Nuno Picoult...
Gritos da gávea interromperam o pensamento do capitão. Anunciavam a proximidade de terra. Era uma ilha verde, bela, onde tudo estava em harmonia. O sol iluminava todos os pontos daquela ilha. Parecia estar a fazer um convite ao seu conhecimento, para que todos pudessem ver a quão maravilhosa era. As águas das cataratas pareciam pedaços de cristais a dançar ao ritmo do chilreio das inúmeras aves exóticas. O arvoredo exalava paz e afeto. No entanto, nem tudo era mágico. Os portugueses ainda não sabiam, mas lá teriam de encontrar formosas e malvadas criaturas que, em nada, se assemelhavam à cristalina transparência daquela ilha.
Ancoraram na suposta ilha maravilhosa. Aí foram recebidos pela rainha Safira. Esta tencionava mantê-los presos sob o seu domínio, nas catacumbas do castelo, por baixo das terras obscuras e húmidas que se ocultavam nas profundezas da bela superfície. De facto, o deslumbramento da ilha era apenas ilusório, pois, no seu interior, tudo era terror, temor, pavor, horror. Ela conseguia manipulá-los, embebedando-os e pondo-os fracos, sem comida ao seu dispor, para que não conseguissem lutar.
No entanto, para que eles caíssem mais facilmente no seu engodo, recebeu-os, calorosamente, com um banquete onde não faltavam as melhores iguarias de todo o mundo. Os nautas beberam vinho dos quatro cantos do mundo, num ambiente paradisíaco, de riqueza inigualável. Nos extremos das toalhas de seda, estavam bordados singelos diamantes a ocultar a mesa dourada; os pratos, copos, cadeiras e até os mais pequenos e insignificantes objetos estavam cobertos de ouro. Comeram e beberam até não poderem mais e, quando estavam pesados demais para lutar, foram presos nas catacumbas do castelo.
De repente, Picoult fez uma pausa e ouviu-se uma voz impaciente:
- Pai, pai! E então o que aconteceu convosco depois? Onde estava a mãe? Por que é que Safira era tão má para vocês? Nunca conheci ninguém tão cruel!
- Calma, filho, deixa-me acabar de te contar o que aconteceu naquele que foi um dos dias mais felizes da minha vida!
E o comandante retomou a narração…
Elizabeth era a única que estava no navio. Ela não os tinha acompanhado, pois estava nauseada. Todavia, o tempo de espera pelo retorno da tripulação tornou-se demasiadamente longo. Pressentia que algo estranho estava a acontecer, por isso aventurou-se pela selva imunda de criaturas tenebrosas. Conseguiu percorrer os trilhos sinuosos, graças aos milhares de estrelas que pintavam de pontos luminosos, naquela noite, o escuro céu.
Encontrou o castelo cheio de trepadeiras e, entre elas, descobriu a entrada para a sala do trono. Escondeu-se, por entre as cortinas de veludo encarnado, e ouviu alguém a rir-se maquiavelicamente, enquanto falava…
- Agora eles são meus e nunca mais voltarão a ver a luz do dia! – dizia Safira, sem saber que estava a ser ouvida pela amada de Picoult.
“Tenho de salvá-los!”, pensou Elizabeth. Seguiu alguns dos guardas de Safira e foi ter às catacumbas, onde estavam Nuno Picoult e toda a tripulação da Mater Dei. Correu para o seu amado e, com a voz embargada pela emoção, disse:
- Nuno, tens de saber que carrego o teu filho no meu ventre. Agora mais que nunca tens de ser forte e lutar… O teu filho precisa de ti, o teu povo precisa de ti…
Extasiado, Picoult exclamou:
- Meu amor, tornaste-me no homem mais feliz do universo! Sim, tens razão! Tenho de recuperar as minhas forças, por ti, pelo meu filho, que há de nascer e que já amo mais que a mim próprio, pela minha pátria… Não vou desistir! Pertenço a um povo de nobres e valentes guerreiros que nunca se deixou esmorecer nem mesmo perante os mais funestos perigos de adamastores escondidos! Vamos arranjar uma estratégia e lutar pela conquista da nossa liberdade.
Orientada pelo comandante luso, Elizabeth roubou as chaves das masmorras, que estavam no pescoço de um guarda adormecido, e deu com uma pá nos guardas despertos, que caíram, então, no imundo chão coberto de poeira.
Depois, os dois apaixonados e a tripulação da Mater Dei correram para a praia e subiram para o navio. Deixaram a malvada Safira a gritar altíssimo. Parecia anunciar profecias para os portugueses… Previa um futuro venturoso, mas árduo e cravado de dor.
Tanto gritou a malvada rainha que os seus gritos se ouviram a milhares de léguas da terrível ilha. Entoaram tão alto que fizeram estremecer a terra e as águas de todos os oceanos. Chegaram, inclusive, a acordar o vulcão adormecido que envolveu a ilha em chamas. Este espetáculo grotesco durou ainda alguns minutos, até que, inesperadamente, se viu o pedaço de terra a ser engolido pelo faminto oceano.
Por causa, ainda, dos gritos da desalmada rainha, havia-se formado um colossal remoinho, a que se juntaram ventos furiosos, que pareciam descarregar uma raiva secular e inexplicável sobre tudo e todos.
A tempestade aproximava-se… Picoult e os seus tripulantes encontravam-se, agora, em grande perigo…


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