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Conto andarilho 2 - 100 anos da Implantação da República em Guimarães

Dia 8 de Outubro: Guimarães acordava com o nascer do Sol e o vento trazia boa disposição.

Começavam a surgir donas de casa que abriam as janelas e avistavam-se as primeiras pessoas a sair de casa, iniciando-se, assim, um novo dia de trabalho. As ruas mostravam-se movimentadas, crianças e adultos desciam a calçada e ouvia-se o trotear dos cavalos que puxavam os coches.

Entre a multidão, alguns ardinas distribuíam o «Jornal de Notícias» como era habitual todas as semanas.

No Largo da Oliveira, existia um café predominantemente frequentado por monárquicos, onde o jornal corria de mesa em mesa. E, como habitual, encontravam-se na mesa airosa, com vista para a calçada, o Senhor Costa Bigodes e o Dr. Salavessa, dois conhecidos e prestigiados monárquicos, a tomar o seu pequeno-almoço.

- Mas o que é isto? – perguntava, exaltado o Senhor Costa, enquanto lia um grande depoimento. - República em Portugal?! Santo Deus! Que calamidade!

Imediatamente, o doutor, que bebia o seu café com grande serenidade, ao ouvir isto, engasgou-se e borrifou a mesa. – Como é possível?

A partir deste momento, todo o café entrou em zaragata: folhas de jornal a voar, gritos de angústia…

Do lado de fora, as pessoas que passavam, interrogavam-se qual seria o motivo de todo aquele alvoroço. O que se estaria a passar lá dentro? Tomás, um jovem que por ali passava todos os dias, reparou na confusão e quis saber o que acontecera. O Tomás era alto e elegante. Tinha o cabelo negro e curto, que combinava com a sua pele morena; os seus olhos verdes brilhavam como esmeraldas finas. Estudava Farmácia para mais tarde continuar o trabalho do seu pai. Naquele dia, trajava umas calças pretas de tecido e uma camisa branca com botões translúcidos, que lhe assentava bem e contrastava com a sua tez morena; usava, também um colete cinzento com três botões negros como o carvão.

Entrou e olhou à sua volta. Talvez fosse a primeira vez que entrava neste café. Era um espaço pequeno, as mesas encontravam-se ordenadas, as paredes eram revestidas por um papel de parede rústico bege e observavam-se molduras dos reis de Portugal penduradas. Pairava, no ar, um aroma delicioso a café. Atrás do balcão, estava o dono, um senhor calvo e moreno, que naquele momento, se aparentava desnorteado e aflito. Tomás aproximou-se e perguntou:

- Desculpe, senhor, o que se sucedeu?

- Nem lhe digo! Olhe que estou aqui numa aflição! Acabámos de saber que aquela coisa tal de República foi implantada em Portugal! É o fim do meu estabelecimento – respondeu.

- Lamento… Obrigado.

Tomás saíu do café e dirigiu-se para o local de trabalho do pai, para o informar do que tinha ocorrido. Enquanto caminhava, viu que, perto dos Paços do Concelho, estava a decorrer uma cerimónia. De imediato, dirigiu-se para lá, no intuito de saber o que acontecera.

- Meus queridos republicanos, hoje é dia de festa! Alcançámos o nosso tão esperado objectivo: temos uma República em Portugal!

Enquanto o novo presidente da Câmara acabara de anunciar aos habitantes da cidade de Guimarães aquela boa nova, alguns homens içavam a nova bandeira nacional. Esta apresentava cores mais vivas, substituindo, assim, o azul e o branco pálidos, pelo vermelho e verde, que brilhavam contra a luz. “Heróis do Mar/nobre povo/nação valente/e imortal…” - Soava a Portuguesa durante a celebração. Tomás nunca tinha visto nada assim. Aos seus olhos, aquilo era fascinante mas ao mesmo tempo ficou receoso. Parecia tudo muito surreal, contudo até quando iria permanecer aquele sonho? O sol enchia o rosto de esperança das pessoas e alguns monárquicos que por ali passavam, baixavam a cabeça e seguiam o seu caminho, indignados.

Na verdade, ele nunca se tinha questionado sobre a forma de governo do seu país – não percebia muito de política. Tomás reparou no seu relógio de bolso, que tinha pertencido à mais antiga geração da sua família e lhe fora oferecido pelo falecido avô. Já era tarde e, nesse dia, tinha prometido ao pai que o iria ajudar na farmácia, por isso, precisava de se apressar. Retomou o caminho e correu. As ruas estavam agitadas, mais do que era normal. Aquela notícia tomou conta da cidade.

Assim que chegou, empurrou a porta e entrou. A farmácia era de tamanho reduzido, com um balcão que delimitava o espaço dos utentes e dos farmacêuticos. Através dos vidros das estantes, avistavam-se frascos bastante organizados, por ordem alfabética como que se percebia. O cheiro a ervas medicinais sobrevoava e ambientava. A Farmácia raramente tinha muita gente, tanto é que naquela hora do dia, estava tudo vazio, o Dr. Rodrigo, pai de Tomás, estava debruçado sobre o balcão e ao seu lado encontravam-se algumas caixas de remédios para guardar.

- Pai, desculpe o atraso. É que passei pelos Paços do Concelho e distraí-me com as horas. Tem alguma coisa por aqui para eu fazer? – e soltou uma gargalhada.

- Só tenho estas caixas para arrumar, por isso, se quiseres, hoje estás dispensado. – respondeu com uma voz afável.

- Não, eu acho que vou ficar por aqui, se não se importar, claro. – dizendo isto, puxou um banco e sentou-se perto do balcão. – Então, já sabe da notícia do novo governo em Portugal?

- Ah, sim… Qualquer coisa. Não me parece que vá ter grande influência, visto que aqui a Monarquia vale mais que ouro!

Continuaram a conversa até serem horas de regressar a casa.

Enquanto jantavam em família, conversavam sobre como tinham passado o dia, ao mesmo tempo que Tomás lhes contava como tinha decorrido a aclamação da República nos Paços do Concelho. Quando já tinham terminado a refeição, o rapaz ouviu uma música que lhe parecia familiar, por isso, dirigiu-se à varanda de sua casa. Imediatamente chamou os pais e os irmãos mais novos.

O sonho estava a repetir-se.

Uma imensidão de pessoas invadia as ruas, iluminadas pelas brilhantes tochas que aqueciam a noite. As expressões dos adultos e crianças que marcavam presença transmitiam alegria, satisfação e alívio.

Conseguia ver-se uma ou outra bandeira nacional a baloiçar ao sabor da suave brisa.

Ouvia-se a Portuguesa e sentia-se um perfume puro a pairar no ar.

O clima era de festa em Guimarães: os republicanos celebravam a vitória sob a monarquia. Estava implantada a república!

Escola: EB2/3 Arqueólogo Mário Cardoso

O Dr. Rodrigo, homem corpulento e sisudo, observou as movimentações da rua pela vidraça espessa. Apesar de gostar pouco da noite, dirigiu-se para a rua. Enquanto caminhava vagarosamente, foi ouvindo as vozes populares sobre os acontecimentos ocorridos dias antes na capital. Não gostou do que ouviu. Ao passar no Toural, entrou no seu café habitual para um chã bem quente e uma leitura atenta do jornal que ainda não tinha lido naquele dia, tarefa que fazia religiosamente todas as manhãs.

O jornal não estava no sítio do costume. Um grupo de curiosos rodeava uma mesa onde alguém lia o Jornal de Notícias. Deitando o olhar por cima dos ombros dos presentes, o Dr. Rodrigo viu as letras gordas do título da primeira página “A República em Portugal” descrevendo-se com minúcia a revolução da capital e a composição do Governo Provisório. Não gostou do que viu, apesar da Monarquia estar perdida desde a nefasta e sangrenta ditadura franquista. Na rua avistou os seus amigos, o Senhor Costa Bigodes e o Dr. Salavessa, monárquicos, confessadamente monárquicos. Saiu de passada larga e clamou:

- Já viram o que aconteceu? Parece que lá em Lisboa a fizeram bonita! Já leram o Jornal de Notícias?

- Já… parece que sim, querem um governo Republicano. Será mesmo verdade?

- É – respondeu o Senhor Costa Bigodes. Eu vi o telegrama enviado pela Agência Havas para o Comércio de Guimarães que chegou à Câmara Municipal, às mãos do Dr. João Gomes de Oliveira, Abade de Tagilde, que até já pôs o lugar à disposição dos Republicanos e que dizia mais ou menos isto: “Lisboa, 5, às 12,5, proclamada a república”. O telegrama tinha a data do dia sete.

- Então é mesmo verdade! Temos de pensar nalguma coisa, estão a mudar as bandeiras. O hino nacional é aquela marcha do Lopes de Mendonça e do Alfredo Keil-  disse o Dr. Rodrigo!

- Estes pobres Republicanos não arranjam coisa melhor? Têm mesmo falta de imaginação – afirmou Dr. Salavessa.

- Bem, vamos para casa, antes que os ânimos se exaltem e haja confusão. Parece que na capital já há mortes… e depois veremos como decorrem os festejos. Pela data, não parece ser um bom dia. É o dia 13!

O Dr. Rodrigo caminhou calmamente para casa. Abriu a porta de mansinho para não acordar a família. Dona Josefina, sua esposa, dormitava agarrada a um terço. O movimento brusco do arrastar de uma cadeira acordou-a.

- O Tomás veio contigo? – perguntou ela, sonolenta.

- O Tomás?! Mas ele não está na cama?

Tomás tinha saído logo a seguir ao pai, mas não lhe tinha pedido autorização.

- Deve andar na rua a observar as movimentações. Não é ele que, para além de estudar farmácia, quer ser jornalista? Já está a treinar.

Deitou-se a pensar na monarquia e desejou que a alvorada chegasse cedo para ler as últimas do Comércio de Guimarães.

Antes de o sol nascer, já o Dr. Rodrigo aprumava pacientemente o seu bigode monárquico. Ele era um seguidor fiel do rei, até no bigode. Saiu. As ruas estavam adormecidas. Apenas os vendedores matinais circulavam apressadamente. Numa esquina, um rapazito de aspecto franzino, de calças multicolores de tantos remendos e descalço, apregoava o Comércio de Guimarães.

De passadas largas, aproximou-se do ardina. Pagou o jornal e entrou no café mais próximo para se proteger do frio e da chuva que ameaçava vir. Sentou-se na mesa mais distante da porta. Olhou a primeira página e deparou-se com uma notícia sobre “os cuidados no lagar e o envasilhamento do vinho”. Apenas num pequeno espaço aparecia o título de “ O Novo Regime” e anunciava que o jornal continuaria “ a pugnar, como sempre o tem feito, conservando a sua atitude de defensor dos interesses morais e materiais de Guimarães”. Ficou mais aliviado. A Monarquia ainda não tinha atingido o pensamento de Guimarães.

Dobrou o jornal e dirigiu-se para a sua farmácia. Aviou algumas receitas do dia anterior, preparou alguns remédios e esperou clientela.

Uma rapariga trigueira, de lábios carnudos, cabelos compridos e negros, de olhos doces, entrou na farmácia. Trazia dobrada sobre os braços uma capa.

- Em que a posso servir? – perguntou o Dr. Rodrigo.

- Queria apenas entregar esta capa que o Tomás me emprestou ontem à noite.

Percebeu, então, onde o Tomás tinha passado a noite. Amores?! Teria com ele uma conversa de homem para homem, para esclarecer o assunto.

- Pode deixar. Será entregue.

Aquela trigueira de olhar doce era a filha mais nova de uma família de lavradores pouco abastados. Era inteligente, sabia ler e escrever, mas a necessidade de mão de obra não lhe permitiu a escola. Era rebelde, mas o regime não lhe permitia as liberdades de uma rapariga de dezoito anos.

Conhecera o Tomás na noite anterior, por mero acaso. Por entre vivas à república aqui e morte à monarquia acolá, parara a ouvir os restos de uma banda desafinada a tocar a “Portuguesa”. A melodia entrou-lhe facilmente no ouvido e o fervor republicano entranhou-se-lhe no corpo. Ao seu lado, um rapaz tentava encaixar a música com uns versos que tinha numa folha rasgada de um jornal. Como não tinha dotes vocais, desistiu da cantoria. De soslaio, aquela trigueira de olhar doce foi acompanhando a música com os versos da folha rasgada. A voz tornava-se cada vez mais firme. O silêncio foi-se aproximando e a sua voz ecoou melodiosamente pela praça.

- Parece que esta música foi feita por encomenda para essa voz tão guerreira – disse o proprietário do papel.

- Acha?

- Acho, não! Afirmo. Com essa voz e essa postura parece aquela imagem que simboliza a república que os jornais trazem.

- Não seja tonto – disse ela – esfregando os braços para afastar o frio.

Instintivamente, ele tirou a sua capa e colocou-lha sobre os ombros. Ela agradeceu com um olhar doce e sedutor. Saíram dali e perderam-se na multidão. A noite estava cada vez mais fria e convidava ao aconchego do lar.

Escola: EB2/3 Briteiros

Ainda meio intrigado com a visita da rapariga, o Dr. Rodrigo continuou o seu trabalho, esperando que os clientes aparecessem. Estes não eram muitos, mas eram fiéis ao seu estabelecimento e eram, igualmente, clientes assíduos. A ida à farmácia não se limitava a aviar receitas. A maioria dos seus clientes era muito mais que clientes, eram seus amigos e o Dr. Rodrigo era o farmacêutico, o amigo, o confidente, o médico, e era, também, quem tratava da correspondência dos mesmos. Até parece impossível, mas a verdade é que cerca de 70% da população portuguesa era analfabeta.

 A meio da tarde, e visto que os clientes tardavam em aparecer, o Dr. Rodrigo resolveu fazer uma pausa e foi tomar um café ao Milenário. A maioria dos seus clientes apresentava um semblante pesado, dados os acontecimentos ocorridos nos dias anteriores. A preocupação era visível nas suas palavras e expressões faciais, visto que a monarquia tinha chegado ao fim.

 Apesar da boa figura que caracterizava o Sr. Costa Bigodes, naquele dia, o descontentamento e a tristeza alteravam completamente as suas feições. A beleza não era propriamente o seu melhor predicado, contudo apresentava-se, habitualmente, com uma boa disposição contagiante. O mesmo se passava com o Dr. Salavessa. Amigos de longa data e com os mesmos ideais, viram o acontecimento do dia anterior como algo catastrófico.

 O Dr. Rodrigo sentou-se na mesa dos amigos, pediu um café e, com um ar pesaroso, desabafou:

 - Ainda pensei que tudo isto não passasse de um terrível pesadelo!

 - Também eu exclamou o Dr. Salavessa, com um ar incrédulo.

 - Pois é, caros amigos, infelizmente estamos perante uma triste realidade – afirmou o Senhor Costa Bigodes.

 - Eu sempre disse que isto ia acabar mal. O princípio do fim foi o malfadado governo de João Franco. D. Carlos nunca deveria ter entregue o governo do nosso país a um ditador – comentou Dr. Rodrigo.

 - Como habitualmente, concordo plenamente com o caro amigo. Tudo mudou desde a ditadura de Franco, e para pior – afirmou o Dr. Salavessa.

 - Até parece que a culpa é toda dele! Estão a esquecer-se das dificuldades que o nosso D. Manuel II revelou nestes últimos dois anos – lembrou o Senhor Costa Bigodes.

 - A culpa não foi do D. Manuel – explicou o Dr. Salavessa – não se esqueçam que o coitado não foi educado para assumir o reino. O herdeiro da coroa era D. Luís Filipe, que, infelizmente, foi assassinado com o pai a 1 de Fevereiro de 1908.

 - Desculpe, caro amigo, mas isso não desculpa as más decisões de D. Manuel II – retorquiu o Senhor Costa Bigodes. Ele até tinha tido uma educação digna de um príncipe. Consta que aos 6 anos já sabia falar e escrever em Francês.

 A conversa estava tão acesa que acabou por chamar a atenção de outros clientes. Um deles, de seu nome Manuel Lopes, sorria perante os comentários dos três amigos e não conseguindo manter o silêncio, acabou por dar uma gargalhada.

 O Dr. Rodrigo ficou indignado com tal atitude e pensou que deveria ser um reles republicano.

 - É isto que nos espera, caros amigos. O respeito pelos princípios monárquicos tem os dias contados – suspirou o Dr. Rodrigo.

Manuel Lopes era conhecido no meio como um homem rude, de poucas falas, mas nunca ninguém o tinha acusado de desrespeitador.

- Não pretendia de forma alguma faltar ao respeito de vossas Exas. – reagiu Manuel Lopes – fazendo uma vénia. Apenas estava atónito com as vossas palavras. Parece que vossas Exas. não querem aceitar uma situação que já estava prevista há muito tempo. O tempo dos governantes com dezoito nomes já passou!

 - Desculpe, mas não percebi a ideia dos dezoito nomes… isso quer dizer o quê perguntou o Dr. Rodrigo.

 - Qualquer monárquico que se preze deveria saber que o nome completo de D. Manuel II é Manuel Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis Eugénio Saxe-Coburgo-Gota e Bragança. Agora temos à frente dos destinos da nossa imensa nação um ilustre homem de leis com apenas quatro nomes.

 - Não me diga que até já houve eleições – perguntou, algo exaltado, o Dr. Salavessa.

 - Sossegue vossa Exa. que ainda não se realizaram eleições, apenas tomou posse o governo provisório, liderado pelo Dr. Joaquim Teófilo Fernandes Braga.

 Irritado com aquela conversa e apercebendo-se da hora tardia, o Dr. Rodrigo apressou-se a pagar a conta e, em passadas largas, dirigiu-se à farmácia. Um caminho curto, mas que se tornou comprido devido à ansiedade que transportava nos seus ombros. Tinha receio do que estava para vir. Receava pelo futuro do filho.  

 Finalmente chegou à farmácia e uma vez lá dentro sentiu-se um pouco mais aliviado. De certeza que nada poderia acontecer-lhe. Ele até era amigo de todos e todos o admiravam.

  Completamente enrolado nos seus pensamentos, o Dr. Rodrigo nem tinha dado conta que o Tomás tinha regressado à farmácia.

 - Pai, onde estás com a cabeça? Estou a falar contigo e tu nem me respondes!

 - Desculpa, meu filho, mas ainda estou desorientado com as notícias que correm. Parece mentira! …

 - Mas é verdade meu pai! Já está tudo a mudar… até ouvi dizer que o D. Manuel já não está em Portugal.

- Para onde foi? – perguntou desesperado – Então já não há mesmo nada a fazer!

- Ouvi dizer que, quando o Palácio das Necessidades foi bombardeado, o Rei fugiu para o Palácio Nacional de Mafra, onde já se encontrava sua mãe, a Rainha D. Amélia de Orleães e outros membros da Família Real. Mais tarde foi para Gibraltar e daí foi para o Reino Unido, tendo sido recebido pelo Rei Jorge V. 

Escola: EB2/3 João de Meira

- Olha, meu filho, não imagino o que vai ser de nós! Este país está perdido! Não percebo por que razão querem mudar… A Inglaterra, sim! Um dos países mais desenvolvidos da Europa, com uma monarquia forte e consistente! É exemplo para todos…

- Mas, pai, o estado da nação estava incontrolável! E…

- E nada! – interrompeu repentinamente Dr. Rodrigo – E nada! Onde é que isto vai parar?! Se até o nosso rei já puseram daqui para fora…

O velho farmacêutico sentou-se numa cadeira, com ar melancólico e preocupado, alheio a tudo o que acontecia ao seu redor. Tomás decidiu deixá-lo sozinho.

Os dias seguintes não foram propícios a qualquer discussão sobre questões de regime. Tomás e Dr. Rodrigo envolveram-se nos seus afazeres, adoptando as mesmas rotinas que já tinham adquirido antes da revolução ter eclodido. Chegou o dia, porém, em que a política voltou a nortear as suas acções. Estávamos a 20 do mês de Outubro.

- Tomás, ficas aqui na farmácia, enquanto vou ao Milenário tomar o meu café e inteirar-me dos mais recentes acontecimentos…

- Está bem! Não te preocupes, pai!

Chegado ao café que frequentava religiosamente desde a sua juventude, apercebeu-se da presença de um grupo de homens bem vestidos, entre os quais se encontravam o Dr. Salavessa e o Sr. Costa Bigodes, debruçados sobre uma mesa, atentos ao “Comércio de Guimarães”.

- Seja bem-vindo! – exclamou o Dr. Salavessa – Estávamos preocupados consigo! Neste momento, estamos a analisar as propostas para a nova bandeira. Veja lá que vários cidadãos telegrafaram ao Sr. Ministro dos Estrangeiros, pedindo para que não fossem mudadas as cores da gloriosa bandeira portuguesa.

- A proposta de Guerra Junqueiro é a melhor! Indiscutivelmente… - afiançou o Sr. Costa Bigodes, que ainda não se tinha apercebido da nova companhia. – Retira a coroa, conserva o escudo com as quinas e o fundo azul e branco da bandeira monárquica. Guerra Junqueiro diz que não se trata das cores do Rei, mas sim as cores da alma nacional e, portanto, não devem ser esquecidas!

- Boa tarde! – saudou Dr. Rodrigo – Para mim, isso não é o bastante para Portugal ser um país melhor… O essencial é o regime político e não acredito que estejamos a trilhar o caminho certo! Contudo, aprecio o trabalho apresentado por Jacinto Roisiers e por António de Sousa que, não tendo sido convidados para a comissão que iria elaborar o projecto de bandeira, apresentaram uma proposta alternativa muito interessante. Qualquer um dos dois descarta o regime político, que pode mudar e, por isso, não deve estar representado na bandeira, mas centrar-se, essencialmente, na nossa época mais gloriosa – Os Descobrimentos, como de facto acontece. Estão lá os símbolos da gesta portuguesa.

- Como está, Dr. Rodrigo? – cumprimentou o Sr. Costa Bigodes – Não deixo de concordar consigo, mas a sugestão de Guerra Junqueiro é a que mais se aproxima da monárquica, a que nunca devia ter sido contestada… Não concorda?

- Claro – respondeu o boticário – Mas olhem… Parece que… Estão a ouvir? Vêm uns ruídos lá de fora…

Estava a discursar o novo Presidente da Câmara Municipal, Sr. José Pinto Teixeira de Abreu, substituindo no cargo o Padre João Gomes Guimarães, mais conhecido por Abade de Tagilde, que governava o município desde os tempos da monarquia. Todos se encaminharam para o exterior, porém o Dr. Rodrigo disse que teria de voltar à farmácia. Quando lá chegou, Tomás informou-o que, por ali, tinham passado dois indivíduos a pedir que distribuíssem aos clientes folhetos relativos às Termas das Caldas das Taipas e aos seus benefícios para a saúde.

- Eu pensei que… – arriscou Tomás. Seu pai respondeu com um ‘sim’ quase mudo.

- Não percebeu! – Continuou timidamente – Sim, eu disse-lhes que distribuía… Mas a minha ideia era que fôssemos passar lá algum tempo, para desanuviar a cabeça, descansar e esquecer por um pouco as recentes movimentações políticas que tanto o afligem! Que me diz a uma ida às termas?

- Vou pensar! Mas não é má ideia, não senhor! Talvez para o final do próximo verão.

E o tempo ia passando, não sem os fiéis monárquicos deixarem de lamentar os novos ventos trazidos pela República. Durante quase um ano, o Dr. Rodrigo foi circulando entre a farmácia e o Milenário, conversando com os seus amigos sobre questões da política nacional ou sobre acontecimentos locais. Havia sempre motivo de conversa. Para Tomás e  Dr. Rodrigo o país degradava-se a cada momento: reinava a instabilidade política, económica e social. Os opositores ao regime manifestavam-se, insurgiam-se contra a República e clamavam pela Monarquia. Muitos foram presos, torturados ou simplesmente desapareciam.

O dia 1 de Setembro de 1911 foi um dia feliz para a família de Tomás, pois estavam de partida para as Caldas das Taipas, local onde passariam um mês de férias. Tinham reservado quartos no Grande Hotel Villas.

Quando chegaram, constataram que no átrio do estabelecimento hoteleiro escolhido estava afixado um folheto que fazia referência ao respeitado analista, Professor Charles Lepierre: “O professor Charles Lepierre da Universidade de Coimbra, em Novembro de 1909, veio expressamente a esta vila visitar os novos balneários, examinar e analisar as suas nascentes nos Banhos Velhos e nos Banhos Novos (…) O distinto analista de renome internacional ficou bem impressionado, tendo publicado, pouco tempo depois, um pequeno livro onde se debruçava sobre as características destas águas e das suas modernas instalações.

Deixaram os seus pertences nos quartos e foram dar um passeio. Deambulavam pela vila, quando viram uma figura conhecida. Tratava-se de Ramalho Ortigão, um dos escritores favoritos do Dr. Rodrigo. Este último apressou o passo e aproximou-se, cumprimentando-o.

-Que prazer encontrá-lo aqui! É um dos meus escritores de eleição e o facto de o Rei D. Luís o ter honrado com a sua amizade, muito me comove.

O autor das “Farpas” exclamou:

- Sabe, meu amigo, que o nosso escritor romântico, Camilo Castelo Branco, na sua juventude defendeu também ideias republicanas. Jornais como o “Nacional” ou o “Eco Popular” testemunham esse facto. Durante o reinado de D. Carlos, o país não estava bem! O fracasso foi, definitivamente, o Ultimato e a ditadura de João Franco. Mas que podia fazer o Rei? Concordar com as ideias republicanas e declarar guerra a Inglaterra? Se assim fosse, duvido que eu hoje estivesse aqui ou que, pelo menos, estivesse a falar Português! Tenho pena de D. Manuel…

- Concordo plenamente! Tenho bem presente uma afirmação da sua autoria, que memorizei. Diz o distinto escritor que pretender equiparar o espírito revolucionário da Rotunda com o espírito revolucionário da Revolução Francesa é incorrer perante a sociologia e perante a história em tão imbecil equívoco como seria em zoologia o de confundir uma lombriga com uma cobra cascavel. No dia 5 de Outubro, em Portugal, não havia opressão e não havia fome…

- A opressão…! Centenas e centenas de monárquicos já foram mortos e torturados! Acabei, mesmo agora de saber que o abade de Vila Nova de Sande, João Cândido da Silva, foi preso por ser um monárquico incondicional.

- Meu Deus… é inacreditável!!!

Escola: EB2/3 Taipas

- Nem por isso, meu jovem amigo. Se fossem os monárquicos a caçar os republicanos não duvido que seriam muito mais cruéis.

- Mas eles estão a matar pessoas apenas por discordarem deles.

- Esta luta pela república apenas por sorte não se transformou numa guerra civil e na guerra as baixas são esperadas. O que estaria você disposto a fazer por aquilo que acredita, pela liberdade, pelo poder de escolher aqueles que decidem o nosso destino?

- Muito, senhor Ortigão. Penso agora que graças a si compreendo melhor os republicanos. – Disse Tomás.

- Compreensão é sem duvida o primeiro passo para a afeição. Ainda bem que o pude esclarecer sobre isto. Agora desculpe-me, mas tenho de me ausentar. Foi um prazer conhecê-lo.

Apertaram as mãos e Ramalho Ortigão começou a afastar-se. Tomás continuou parado, como que fulminado pelas novas ideias que lhe vinham à cabeça. De repente, gritou:

- Senhor Ortigão,  espere! Uma última pergunta. Que defende o senhor?

- A liberdade, que mais? – Respondeu Ramalho com um sorriso enigmático à Mona Lisa.

Mais tarde, Tomás estava a entrar no hotel, onde ele e o pai estavam hospedados, quando viu um tumulto na recepção. Uma multidão rodeava dois polícias republicanos que estavam a arrastar um homem, acusado de fornecer veneno aos monárquicos com o intuito de matar o recém nomeado Presidente da República. Tomás aproximou-se para ver mais de perto este perigoso agente monárquico. Empurrou várias pessoas, pisou uns quantos pés e disse alguns “com licença” até que pôs os olhos em cima do criminoso.

Chocado, descobriu que era o seu próprio pai. Correu para ele, alarmado.

- Pai, que aconteceu? Que fizeste?

- Descobriram-me, Tomás! Na minha tentativa de fazer o rei voltar, vim aqui para fornecer veneno aos monárquicos que querem matar o maldito que se sentou no trono!

- Mas, Pai, já pensou que os republicanos poderão estar certos? Que desperdiçou a sua vida para nada? – Disse Tomás, a tremer.

- O quê? Mas que… Filho, foge! Volta para Guimarães! Salva a tua mãe! Esconde-te! Adeus, meu filho! Morrerei pelo Rei….e por ti!

Com isto, o Dr. Rodrigo foi arrastado para uma carroça. Quando as portas se fecharam, Tomás soube que seria a última vez que veria o Pai.

Tomás alugou um cavalo e cavalgou para longe. Quando chegou a um monte, disse:

- Amaldiçoada seja esta Terra, pois aqui o meu Pai morreu! Nunca mais aqui voltarei. Que todos os filhos desta terra comam apenas cebolas e todos os seus animais de estimação sejam mancos!

Com isto, voltou-se e cavalgou sempre a abrir, de volta a Guimarães.

Irene Silva de Peru entrou no Toural, caminhando lentamente. Pensava em todos os problemas que o país enfrentava. Respirou fundo. Sem dúvida, esta era uma linda manhã de Primavera. Então olhou para o lado, e avistou um mendigo deitado num banco vermelho. Arregalou os olhos e correu para ele.

Tomás acordou estrebuchando. Abriu os olhos lentamente para apenas descobrir Irene a olhar para ele. Gritou, assustado.

-Tu? Aqui? Como me encontraste?

- Fico contente por ver que te lembras de uma pobre trigueira com quem passaste uma noite.- Disse Irene, sorrindo.- Anda. Vem comigo.

- Mas porque me ajudas tu? Não sabes que sou procurado por ser cúmplice de meu falecido pai?

- Por isso mesmo é que te ajudo!

Ajudou Tomás a levantar-se e juntos caminharam para casa de Irene.

Escola: EB2/3 Santos Simões

O caminho até à casa de Irene era longo e cansativo. Tomás, depois de passar alguns dias sem comer, sentia os seus pés pesados como chumbo.

Assim que chegaram à casa de Irene, esta ofereceu-lhe um prato de sopa e um copo de vinho. Tomás comeu aquele humilde prato como se fosse um manjar dos deuses.

Com o estômago mais reconfortado olhou para Irene. Os cabelos castanhos acobreados contrastavam com a sua pálida pele, os seus olhos doces emanavam preocupação e, ao mesmo tempo alegria por estar na companhia de Tomás. Irene sorriu. Um sorriso doce e delicado que fez com que Tomás tivesse vontade de beijar aqueles lábios.

- Olha para ti! Estás todo sujo. Vou te preparar um bom banho e arranjar umas roupas do meu pai para vestires.

- Hã… Obrigado. – agradeceu Tomás um pouco atordoado por acordar tão subitamente da sua fantasia.

Irene levantou-se, sacudiu a saia bastante remendada e saiu para o corredor. Tomás seguiu-a.

A casa não era muito grande, mas tinha um ar confortável e acolhedor. As paredes, de um branco manchado, encontravam-se cobertas de pequenas prateleiras onde secava a marmelada caseira e repousavam as várias compotas e preparados feitos por Irene e a sua mãe. Enquanto caminhavam para o quarto principal, passavam por pequenas divisões onde móveis antigos, possivelmente passados de geração em geração, decoravam aquele pequeno lar.

O quarto dos pais de Irene era, talvez, a maior divisão da casa. A cama, ao centro, em madeira dura e trabalhada, ocupava a maior parte do espaço. Existia também um pequeno banco aos pés da cama, um armário simples onde era guardada a roupa das cerimónias e do Domingo e uma pequena janela através da qual se avistavam algum gado.

- Irene! Estás em casa? – chamou uma voz grossa e máscula.

- Sim, pai. Estou no seu quarto.

Ouviram-se pesados passos e, de repente a porta abriu-se. Em vez desta, Tomás viu o Sr. Silva de Peru, pai de Irene.

- Bom dia! Quem é este teu amigo, Irene? – perguntou o Sr. Silva de Peru enquanto apertava a mão de Tomás.

- É Tomás. Encontrei-o deitado num banco no Toural, ao frio e com fome e resolvi trazê-lo para lhe dar uma boa refeição.

- Fizeste bem, minha filha! Temos pouco, mas chega sempre para ajudar quem precisa. – disse o pai de Irene. – E tu, meu jovem, qual é a tua história?

Tomás contou a sua história, contou que o seu pai havia sido preso por tentar matar os Presidentes Republicanos, que fora em busca de sua mãe, mas esta não estava em casa e que, com medo, se tinha refugiado nuns campos perto da vila de Urgezes, mas que, ao fim de algumas semanas, desceu até ao centro da cidade para procurar trabalho, acabando por adormecer num banco, onde fora encontrado por Irene.

- Tenho imensa pena de ti. Tão jovem e com tantos problemas atrás. Mas não te preocupes com o alojamento, podes ficar cá em casa, desde que dês um bocado de esforço em troca. Podes ajudar a Irene na colheita.

- Muito obrigado Sr. Silva de Peru. Tanta generosidade e eu apenas tenho que ajudar nos campos. Estou-lhe eternamente em dívida! – Tomás quase chorava ao falar. – Mas, e a minha mãe? Eu tenho que a encontrar.

- Em relação a isso, também arranjaremos uma forma de a encontrar. – disse, sorrindo, o pai de Irene.

Tomás retribuiu o sorriso e, relembrando o banho, procurou Irene. Encontrou-a na cozinha, onde pairava um leve aroma a sabão e rosas. Onde, à algumas horas atrás, se encontrava a mesa, agora Tomás via uma enorme bacia cheia de água quente.

- Ah! Estás aí. Já podes tomar banho. A roupa para vestires depois está ali. – disse, apontando para uma cadeira velha que se encontrava em volta da mesa, que estava encostada a um canto.

- Muito obrigado! – Tomás agradeceu e colocou um leve beijo na bochecha de Irene, fazendo com que esta soltasse um risinho e corasse subitamente.

- Bem, vou-te deixar a sós para que tenhas um pouco de privacidade. – disse Irene, ao mesmo tempo que fechava a porta atrás de si.

Escola: EB2/3 Gil Vicente

Tomás passou um mês na casa do Senhor Silva de Peru, trabalhava diariamente, no serviço doméstico, no cultivo dos campos, cuidava do gado, cortava lenha … de modo a saldar a dívida de gratidão para com a família que o acolhera. No entanto, uma forte preocupação atormentava-o, como estaria a sua mãe?! 

Uma noite, após a ceia, conversou com o Senhor Silva de Peru e explicou-lhe que teria que partir, pois continuava a ser procurado como cúmplice do seu falecido pai, colocando assim em risco uma honrada família e, por outro lado, pretendia procurar a sua mãe.

No dia seguinte, despediu-se de Irene e partiu da mesma forma como a encontrou na noite da aclamação da República, sem promessas de reencontros.

Tomás procurou alguns familiares e velhos amigos que lhe foram dando notícias da sua mãe. Apesar das grandes dificuldades que teve, uma vez que já não estava perto da vila de Urgezes, encontrou-a finalmente na casa de um antigo cliente da farmácia do seu pai, que vivia nas cercanias de Fafe.

Após uma longa saudação e uma séria conversa, decidiram juntar o dinheiro que possuíam e o cordão de ouro que trazia ao pescoço, para entregar a um senhor que guiava os clandestinos até Espanha. Aí, procurariam em Vigo, os seus familiares.

Esta família portuguesa que tinha tido uma vida estável acabou por sofrer o infortúnio de uma época politicamente conturbada, o fim da Monarquia e a implantação da República.

Em relação ao rumo político e aos ventos de mudança, o ano de 1911, marcou Guimarães pela habitual oposição monárquica, em Agosto houve uma queima de bandeiras nacionais e quando a banda do Regimento da Infantaria 20 tocou o Hino Nacional, no Jardim Público, houve provocações de indivíduos que não respeitaram o acto, mantendo o chapéu na cabeça.

Mas, ainda, nesse ano, outros acontecimentos foram determinantes, tais como a cisão nacional do Partido Republicano Português, em três partidos políticos: Democrático, Unionista e Evolucionista, que também se reflectiu em Guimarães, em que os Republicanos se dividiram, na globalidade, uns apoiando os Evolucionistas, liderado por António José de Almeida e outros apoiavam o Partido Democrático e o seu dirigente Afonso Costa.

António José de Almeida visitou Guimarães em Novembro de 1911 e foi entusiasticamente recebido nas manifestações e no teatro Jordão. O ilustre visitante foi anunciado pelo vimaranense, Dr. Alfredo Pimenta que afirmou: 

«- Esta terra que passava por ser das mais conservadoras do país, neste momento demonstra que é um baluarte para a República, exigindo apenas da política, paz e ordem para poder trabalhar e prosperar.»

Também em 1911, nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte foi eleito deputado, o vimaranense Eduardo d’Almeida, que se dedicou à causa republicana.

Os Republicanos em Guimarães, não trilharam caminhos fáceis, não mostraram medo, não se esconderam, lutaram pela causa que acreditavam: um regime político, com um Chefe de Estado eleito por um determinado período de tempo.

Conscientes do longo caminho a percorrer, acreditavam que com a República se tomariam medidas para combater o analfabetismo e melhorar todos os níveis do Ensino; para desenvolver a agricultura, a indústria e o comércio; para dignificar os Portugueses, enfim, para pôr em prática os ideais de liberdade e igualdade.

Os jornais e outras publicações, as tertúlias no Toural, no Largo da Oliveira, no café Milenário (e noutros cafés com clientela habitual) foram decisivos para espalhar os ideais republicanos bem como as realizações e as dificuldades da Primeira República. 

Comemorar o primeiro centenário da implantação da República Portuguesa é continuar a obra dos primeiros republicanos para que seja cumprido o primeiro artigo da Constituição Portuguesa: «Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária».

 Hum…já me esquecia! Depois de uma pequena estada em Espanha, o Tomás tentou a sua sorte em Inglaterra. Com o apoio de alguns amigos e de uma bela senhora que conhecera concluiu os estudos e dedicou-se aos negócios do Vinho do Porto. Fez fortuna e conseguiu minimizar as saudades do seu país. Nunca esqueceu o sorriso de Irene mas o Fado não os voltou a juntar. De quando em vez chegavam (sem remetente) uns saborosos cabazes, recheados de coisas boas, a esta humilde mas bondosa família. Irene, feliz e mãe de quatro filhos, continuou pela vida fora a trabalhar a sua terra. “Que seja muito feliz!” sussurrava esta ao seu poderoso Deus.

Escola: EB2/3 Egas Moniz